JUFRA concede entrevista ao site Jovens Conectados sobre a C√ļpula dos Povos


O entrevistado √© Emanuelson Matias de Lima, ou s√≥ Elson Matias, da Juventude Franciscana (JUFRA). Elson tem 22 anos, √© estudante de Hist√≥ria na Universidade Estadual da Para√≠ba (UEPB) e tamb√©m √© subsecret√°rio nacional de Direitos Humanos, Justi√ßa, Paz e Integridade da Cria√ß√£o da JUFRA do Brasil. Ele foi um dos principais articuladores da participa√ß√£o da JUFRA durante a C√ļpula dos Povos no Rio. Confira:


-Jovens Conectados: Como foi √† participa√ß√£o dos jovens nos debates sobre meio ambiente nas √ļltimas semanas no Rio?

-Elson Matias: As juventudes fizeram-se presentes na C√ļpula dos Povos atrav√©s do Enlace das Juventudes, que foi uma articula√ß√£o convergente de mais de 40 organiza√ß√Ķes de jovens de diversos segmentos do Brasil e do mundo. O Enlace conduziu o processo de formula√ß√£o das contribui√ß√Ķes das juventudes na C√ļpula e organizou o Territ√≥rio das Juventudes, espa√ßo politicamente livre e autogestionado, garantindo autonomia e responsabilidade de cada organiza√ß√£o em particular e coletivamente. Durante os 10 dias da C√ļpula dos Povos, 2.500 jovens do Brasil e do Mundo estiveram acampados na UFRJ, uma experi√™ncia inovadora que buscava agregar todas as organiza√ß√Ķes juvenis, numa luta constante de pluralidade e respeito √† diversidade. Nos primeiros dias, foram organizadas rodas de di√°logos e plen√°ria de converg√™ncia para debater os eixos que nortearam toda a C√ļpula: den√ļncia das causas estruturais das crises, das falsas solu√ß√Ķes e das novas formas de reprodu√ß√£o do capital, solu√ß√Ķes e novos paradigmas dos povos e est√≠mulo √†s organiza√ß√Ķes e movimentos sociais a articular processos de luta anticapitalista p√≥s-Rio+20. As Juventudes escreveram documentos em torno desses eixos, que foram apresentados nas Assembl√©ias dos Povos durante a C√ļpula.


-Jovens Conectados: E a participa√ß√£o da juventude cat√≥lica? Quais contribui√ß√Ķes foram dadas?

-Elson Matias: Dentro do Enlace das Juventudes da C√ļpula dos Povos, duas organiza√ß√Ķes cat√≥licas de jovens se fizeram presentes: a Juventude Franciscana-JUFRA e a Pastoral da Juventude-PJ, que conseguiram construir um processo conjunto de parceria, articula√ß√£o, conviv√™ncia e que abre perspectivas para a continuidade dos trabalhos na dimens√£o s√≥cio-transformadora da evangeliza√ß√£o. As contribui√ß√Ķes da JUFRA e da PJ se deram, sobretudo no apoio m√ļtuo, nos trabalhos junto √† Secretaria Geral do Enlace das Juventudes, no GTs de Metodologia e de Infraestrutura, nas assembl√©ias do Territ√≥rio das Juventudes, nos debates e encaminhamentos das rodas de conversa, plen√°rias de converg√™ncia e nas Assembleias dos Povos. Na ter√ßa-feira, 19 de junho, junto √† assessoria da Comiss√£o da CNBB para o Servi√ßo da Justi√ßa, da Paz e da Caridade, a JUFRA e a PJ organizaram uma Roda de Di√°logo sobre a 5¬™ Semana Social Brasileira, promovida pela CNBB, debatendo o tema principal: “A participa√ß√£o da sociedade no processo de democratiza√ß√£o do Estado – Estado para qu√™ e para quem?”, fazendo a liga√ß√£o com eixos como; Juventude, Ecologia, Participa√ß√£o Popular, Estado e N√£o √† Economia Verde. Al√©m disso, a JUFRA esteve e est√° apoiando e participando da Campanha Mundial “N√£o a Economia Verde”, que no Brasil est√° sendo liderada e organizada pela Fam√≠lia Franciscana, atrav√©s do SINFRAJUPE (Servi√ßo Inter-Franciscano de Justi√ßa, Paz e Ecologia).


-Jovens Conectados: Qual sua avaliação dessa participação?

-Elson Matias: Politicamente, todo o processo da C√ļpula dos Povos e do Enlace foi um caminho de aprendizado, mesmo para as organiza√ß√Ķes que h√° anos j√° realizam um trabalho na √°rea da Ecologia. Hoje, √© preciso entender que o “ambiental” e o “social” n√£o s√£o elementos distintos e desconexos, mas sim compreender que as rela√ß√Ķes ecol√≥gicas precisam ser levadas em considera√ß√£o como fundamentais para a continuidade da Vida. Essa vis√£o global da defesa da vida fez com que a C√ļpula fosse um espa√ßo de partilha de experi√™ncias e a afirma√ß√£o de posicionamentos que desencadeie um processo integrado de lutas e caminhos poss√≠veis para que a Justi√ßa e a Paz aconte√ßam no mundo. Particularmente, a Igreja precisa se fazer mais presente e atuante nesses espa√ßos.


-Jovens Conectados: Como foi o debate dentro do carisma franciscano, e em particular da JUFRA, das a√ß√Ķes que precisam ser feitas em defesa do meio ambiente?

-Elson Matias: Junto √† C√ļpula dos Povos, um grupo de sessenta franciscanos/as de todos os Continentes se reuniram e, enquanto presen√ßa franciscana, participaram das atividades da C√ļpula, debateram a contribui√ß√£o espec√≠fica franciscana no processo global de lutas e planejaram as a√ß√Ķes nessa perspectiva de atua√ß√£o. Os participantes eram frades, religiosas e leigos e leigas da OFS e da JUFRA, organizados pela entidade Franciscans International-FI e pelo Servi√ßo Inter-Franciscano de Justi√ßa, Paz e Ecologia-SINFRAJUPE. Um espa√ßo de atua√ß√£o muito importante foi a caminhada realizada pelos franciscanos na Favela da Rocinha, com o intuito de divulgar as discuss√Ķes que estavam ocorrendo na C√ļpula dos Povos, para al√©m do Aterro do Flamengo, onde estava ocorrendo o evento. No dia 18/06, foi organizado um semin√°rio sobre Alternativas √† Economia Verde, promovendo e divulgando a Campanha Mundial Contra a Economia Verde e a Mercantiliza√ß√£o da Vida (www.nogreeneconomy.org). Tamb√©m foi marcante a presen√ßa na Marcha dos Povos, no dia 20 de junho, e com a instala√ß√£o franciscana no territ√≥rio da C√ļpula, com imagens reflexivas a partir do C√Ęntico das Criaturas, de S√£o Francisco de Assis. Nos encaminhamentos, os franciscanos/as escolheram tr√™s eixos para a continuidade das a√ß√Ķes em n√≠vel global p√≥s-C√ļpula dos Povos e Rio+20: Promover a autenticidade de vida (com a revis√£o do estilo de vida), Participar no projeto sobre minera√ß√£o dos promotores de JPIC em Roma e continuar a campanha N√£o √† Economia Verde, denunciando os problemas criados pela economia verde e buscando paradigmas alternativos para a sociedade.


-Jovens Conectados: Como a vis√£o crist√£ sobre o meio ambiente se relaciona com o que foi debatido na C√ļpula dos Povos e na Rio+20?

-Elson Matias: A Cria√ß√£o foi iniciada por Deus, mas foi repassada √† humanidade a tarefa de co-criar, junto ao Criador, ou seja, de continuar ao longo dos tempos e lugares, animados pelo Esp√≠rito Santo, a Cria√ß√£o, que n√£o findou com o descanso de Deus no s√©timo dia. √Č responsabilidade do seres humanos, imagem e semelhan√ßa de Deus, contribuir para que tudo que Deus criou seja destinado como fonte de vida e vida em abund√Ęncia para todos/as. √Č este o sentido da afirma√ß√£o colocada na boca de Deus: “Submetei a terra”, em G√™nesis 1,28. Na Carta √† Comunidade dos Romanos, Paulo escreve: “Sabemos que a cria√ß√£o toda geme e sofre dores de parto at√© agora.” (Rm 8,22), isso h√° quase mil novecentos e cinq√ľenta anos atr√°s, numa comunidade inserida na realidade de um imp√©rio opressor, concentrador de riquezas, violento e devastador. E Paulo continua: “A cria√ß√£o foi sujeita ao que √© v√£o e ilus√≥rio, n√£o por seu querer, mas por depend√™ncia daquele que a sujeitou.” (Rm 8,20). O refr√£o do Hino da Campanha da Fraternidade 2011 nos diz e questiona: “Nossa M√£e Terra, Senhor, geme de dor noite e dia. Ser√° de parto esta dor ou simplesmente agonia? Vai depender s√≥ de n√≥s, vai depender s√≥ de n√≥s”. Ora, n√£o seria a M√£e Terra a falar pela boca do profeta Isa√≠as, quando afirma: “Por muito tempo me calei, estive em sil√™ncio e me contive. Como uma mulher que est√° de parto, eu gemia, suspirava, respirava ofegante.” (Is 42,14)?. Os gemidos da natureza confundem-se com os gemidos dos humanos, sobretudo dos pobres e oprimidos. E, natureza e humanos, unindo solidariamente seus gritos causados pela mesma dor, poder√£o chegar ao estado de “Integridade da Cria√ß√£o”. Cria√ß√£o √≠ntegra, inteira, unida, em plena comunh√£o, entre si e com o Criador, renovada no Cristo, pela for√ßa do Esp√≠rito Santo. O hino “Jesus Cristo, Esperan√ßa do Mundo”, que cantamos em comunh√£o com a caminhada ecum√™nica das Igrejas Crist√£s, afirma po√©tica e evangelicamente: “Venha o Teu Reino, Senhor, a Festa da Vida recria. A nossa espera e a dor, transforma em plena alegria!”


-Jovens Conectados: Qual o resultado final que você faz sobre esse debate?

-Elson Matias: As perspectivas para a continuidade da luta e da organiza√ß√£o popular est√£o muito boas, segundo aquilo que foi vivenciado na C√ļpula dos Povos, pois o espa√ßo de possibilitar a converg√™ncia e a aceita√ß√£o m√ļtua entre os povos geram trabalhos conjuntos e articulados para a promo√ß√£o da Justi√ßa e da Paz. A Ecologia, como tema transversal a todos os debates, faz com que a preocupa√ß√£o com a Vida, como bem supremo, venha refor√ßar a luta e a atua√ß√£o de milhares de pessoas em todo o mundo que, indignados com a situa√ß√£o, promovem a conscientiza√ß√£o para que cada pessoa, grupo, entidade, comunidade se organize e, coletivamente, proponha e assuma mudan√ßas, no indiv√≠duo, na comunidade e na sociedade. Para a JUFRA e a PJ, particularmente, a C√ļpula dos Povos veio refor√ßar nosso papel crist√£o de, como Igreja, sermos solid√°rios e samaritanos junto aos sofredores e sofredoras do mundo inteiro. Al√©m disso, a participa√ß√£o de n√≥s, jovens cat√≥licos, abriu novas possibilidades de parceiras com outras entidades civis que tamb√©m acreditam e lutam por essas causas. Somos conscientes que nossa participa√ß√£o ativa nesse processo √© o nosso compromisso como Igreja, e temos certeza que estar nesse processo, trazendo nossas vis√Ķes da natureza e nossa perspectiva de uma sociedade justa e fraterna representa nossa principal contribui√ß√£o nesses debates.

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