quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

QUANDO UM PRESÉPIO OFENDE A DEUS

Por Frei Diego Melo, OFM


Nesses últimos dias fiquei pensando e refletindo o quanto um presépio, uma inocente representação do nascimento de Jesus em meio aos últimos, excluídos, criminalizados e descartados de nossa sociedade pode ser uma grande 'ofensa a Deus, uma heresia, uma blasfêmia e um verdadeiro escândalo'.
Fiquei pensando que essas expressões não são de agora e nem surgiram apenas ao ver o menino Jesus posto em meio a gente de má fama, pois esses sentimentos já brotaram há muito tempo no coração dos fariseus, doutores e mestres da lei.
Fiquei lembrando dos inúmeros conflitos que Jesus teve que enfrentar com aqueles 'fiscais da fé', aquelas pessoas de bem e de religião que ao olhar as suas atitudes não conseguiam ver outra coisa senão uma grande heresia e uma ofensa a Deus.
Era demais aceitar aquele Jesus comendo com pecadores, se deixando acompanhar por mulheres de má fama, protegendo viúvas, defendendo prostitutas, elogiando a atitude misericordiosa de samaritanos pagãos ao invés dos sacerdotes do templo, chamando a Deus de pai, pregando que quem não estava contra ele era a seu favor.
De fato muita gente achou que o que Jesus fazia era uma ofensa a Deus, pois ao invés do ódio aos inimigos ela pregava o amor e a tolerância, ao invés da vingança e do ‘olho por olho e dente por dente’ ele pregava o perdão e a reconciliação. Era uma verdadeira blasfêmia fazer milagres e realizar curas em pleno dia de sábado, quando a lei judaica proibia qualquer atividade naquele dia dedicado ao Senhor..
Para quem pensa a partir da lógia legalista e meritocrata, o presépio também é uma grande ofensa a Deus, afinal, o menino Jesus não nasceu em um lugar luxuoso, puro e sagrado dentro do grande templo de Jerusalém, mas veio em meio aos animais de uma pobre estrebaria. Veio como criança pobre e indefesa e se deixou adorar por três reis magos que não eram nada puros ou 'religiosos', pois eram astrólogos pagãos. Atraiu primeiramente a três pastores, gente inculta, impura e que não praticava a religião. Mais ainda, aquela criança, filha de um relacionamento fora de um casamento, de uma jovem provinda de uma simples e desprezada cidade da periferia do mundo, cuidada por um pai adotivo, só poderia ser 'causa de escândalo e ofensa a Deus'.
De fato, esse Jesus com a sua história, sua família, seu jeito de ser e suas escolhas era tão perigoso, que em nome da moral, dos bons costumes, da religião e da ordem, o melhor que poderia ser feito era extirpá-lo entregando-o como um malfeitor e blasfemo. E assim o fizeram!
E hoje, mais uma vez, esse Jesus que continua fazendo as mesmas escolhas que fez há mais de dois mil anos, continua sendo considerado 'blasfemo', 'imoral' e 'revolucionário' demais, de modo que é melhor continuar matando-o através de nossas pregações piegas e desencarnadas, das nossas interpretações de acordo com as nossas conveniências, dos nossos falsos moralismos, preconceitos, julgamentos e exclusões. É melhor deixá-lo bem quietinho e só relembrar de contar as suas histórias e os seus feitos que muitas vezes nos causam emoção e lágrimas e servem para anestesiar as nossas consciências, mas que em nada provocam e mudam a nossa vida.
Esse mesmo Jesus, sinal de ofensa a Deus, continua sendo perseguido pelos fiscais da fé e pelas pessoas de religião, gente que na noite de Natal emociona-se ao ver a encenação do Nascimento do Deus-menino, mas que não entende o real alcance daquele acontecimento.
De fato, para quem pensa a partir da lógica de um Deus que veio somente para os puros e santos, e que só sabe punir os pecadores e castigar os maus, esse Jesus certamente continuará sendo uma grande e irremediável 'ofensa a Deus'.
Por fim, gostaria de lembrar o aniversário natalício do Papa Francisco. Confesso que tenho a impressão de que para os fariseus e doutores da lei de hoje, os fiscais da fé, também o Papa Francisco está causando grandes transtornos e escândalos para os nossos tempos. Na minha humilde opinião, estou querendo achar que o Papa Francisco anda imitando demais os passos de Jesus e o seu modo de ser, de modo que ele, tal qual Jesus, já está sendo acusado de ser também um 'escândalo', um 'blasfemo' e uma verdadeira 'ofensa a Deus'.


SAIBA MAIS:

24º Exposição de Presépios no Valongo

Nota de Esclarecimento
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