sexta-feira, 13 de julho de 2012

JUFRA concede entrevista ao site Jovens Conectados sobre a Cúpula dos Povos


O entrevistado é Emanuelson Matias de Lima, ou só Elson Matias, da Juventude Franciscana (JUFRA). Elson tem 22 anos, é estudante de História na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e também é subsecretário nacional de Direitos Humanos, Justiça, Paz e Integridade da Criação da JUFRA do Brasil. Ele foi um dos principais articuladores da participação da JUFRA durante a Cúpula dos Povos no Rio. Confira:


-Jovens Conectados: Como foi à participação dos jovens nos debates sobre meio ambiente nas últimas semanas no Rio?

-Elson Matias: As juventudes fizeram-se presentes na Cúpula dos Povos através do Enlace das Juventudes, que foi uma articulação convergente de mais de 40 organizações de jovens de diversos segmentos do Brasil e do mundo. O Enlace conduziu o processo de formulação das contribuições das juventudes na Cúpula e organizou o Território das Juventudes, espaço politicamente livre e autogestionado, garantindo autonomia e responsabilidade de cada organização em particular e coletivamente. Durante os 10 dias da Cúpula dos Povos, 2.500 jovens do Brasil e do Mundo estiveram acampados na UFRJ, uma experiência inovadora que buscava agregar todas as organizações juvenis, numa luta constante de pluralidade e respeito à diversidade. Nos primeiros dias, foram organizadas rodas de diálogos e plenária de convergência para debater os eixos que nortearam toda a Cúpula: denúncia das causas estruturais das crises, das falsas soluções e das novas formas de reprodução do capital, soluções e novos paradigmas dos povos e estímulo às organizações e movimentos sociais a articular processos de luta anticapitalista pós-Rio+20. As Juventudes escreveram documentos em torno desses eixos, que foram apresentados nas Assembléias dos Povos durante a Cúpula.


-Jovens Conectados: E a participação da juventude católica? Quais contribuições foram dadas?

-Elson Matias: Dentro do Enlace das Juventudes da Cúpula dos Povos, duas organizações católicas de jovens se fizeram presentes: a Juventude Franciscana-JUFRA e a Pastoral da Juventude-PJ, que conseguiram construir um processo conjunto de parceria, articulação, convivência e que abre perspectivas para a continuidade dos trabalhos na dimensão sócio-transformadora da evangelização. As contribuições da JUFRA e da PJ se deram, sobretudo no apoio mútuo, nos trabalhos junto à Secretaria Geral do Enlace das Juventudes, no GTs de Metodologia e de Infraestrutura, nas assembléias do Território das Juventudes, nos debates e encaminhamentos das rodas de conversa, plenárias de convergência e nas Assembleias dos Povos. Na terça-feira, 19 de junho, junto à assessoria da Comissão da CNBB para o Serviço da Justiça, da Paz e da Caridade, a JUFRA e a PJ organizaram uma Roda de Diálogo sobre a 5ª Semana Social Brasileira, promovida pela CNBB, debatendo o tema principal: “A participação da sociedade no processo de democratização do Estado – Estado para quê e para quem?”, fazendo a ligação com eixos como; Juventude, Ecologia, Participação Popular, Estado e Não à Economia Verde. Além disso, a JUFRA esteve e está apoiando e participando da Campanha Mundial “Não a Economia Verde”, que no Brasil está sendo liderada e organizada pela Família Franciscana, através do SINFRAJUPE (Serviço Inter-Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia).


-Jovens Conectados: Qual sua avaliação dessa participação?

-Elson Matias: Politicamente, todo o processo da Cúpula dos Povos e do Enlace foi um caminho de aprendizado, mesmo para as organizações que há anos já realizam um trabalho na área da Ecologia. Hoje, é preciso entender que o “ambiental” e o “social” não são elementos distintos e desconexos, mas sim compreender que as relações ecológicas precisam ser levadas em consideração como fundamentais para a continuidade da Vida. Essa visão global da defesa da vida fez com que a Cúpula fosse um espaço de partilha de experiências e a afirmação de posicionamentos que desencadeie um processo integrado de lutas e caminhos possíveis para que a Justiça e a Paz aconteçam no mundo. Particularmente, a Igreja precisa se fazer mais presente e atuante nesses espaços.


-Jovens Conectados: Como foi o debate dentro do carisma franciscano, e em particular da JUFRA, das ações que precisam ser feitas em defesa do meio ambiente?

-Elson Matias: Junto à Cúpula dos Povos, um grupo de sessenta franciscanos/as de todos os Continentes se reuniram e, enquanto presença franciscana, participaram das atividades da Cúpula, debateram a contribuição específica franciscana no processo global de lutas e planejaram as ações nessa perspectiva de atuação. Os participantes eram frades, religiosas e leigos e leigas da OFS e da JUFRA, organizados pela entidade Franciscans International-FI e pelo Serviço Inter-Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia-SINFRAJUPE. Um espaço de atuação muito importante foi a caminhada realizada pelos franciscanos na Favela da Rocinha, com o intuito de divulgar as discussões que estavam ocorrendo na Cúpula dos Povos, para além do Aterro do Flamengo, onde estava ocorrendo o evento. No dia 18/06, foi organizado um seminário sobre Alternativas à Economia Verde, promovendo e divulgando a Campanha Mundial Contra a Economia Verde e a Mercantilização da Vida (www.nogreeneconomy.org). Também foi marcante a presença na Marcha dos Povos, no dia 20 de junho, e com a instalação franciscana no território da Cúpula, com imagens reflexivas a partir do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis. Nos encaminhamentos, os franciscanos/as escolheram três eixos para a continuidade das ações em nível global pós-Cúpula dos Povos e Rio+20: Promover a autenticidade de vida (com a revisão do estilo de vida), Participar no projeto sobre mineração dos promotores de JPIC em Roma e continuar a campanha Não à Economia Verde, denunciando os problemas criados pela economia verde e buscando paradigmas alternativos para a sociedade.


-Jovens Conectados: Como a visão cristã sobre o meio ambiente se relaciona com o que foi debatido na Cúpula dos Povos e na Rio+20?

-Elson Matias: A Criação foi iniciada por Deus, mas foi repassada à humanidade a tarefa de co-criar, junto ao Criador, ou seja, de continuar ao longo dos tempos e lugares, animados pelo Espírito Santo, a Criação, que não findou com o descanso de Deus no sétimo dia. É responsabilidade do seres humanos, imagem e semelhança de Deus, contribuir para que tudo que Deus criou seja destinado como fonte de vida e vida em abundância para todos/as. É este o sentido da afirmação colocada na boca de Deus: “Submetei a terra”, em Gênesis 1,28. Na Carta à Comunidade dos Romanos, Paulo escreve: “Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora.” (Rm 8,22), isso há quase mil novecentos e cinqüenta anos atrás, numa comunidade inserida na realidade de um império opressor, concentrador de riquezas, violento e devastador. E Paulo continua: “A criação foi sujeita ao que é vão e ilusório, não por seu querer, mas por dependência daquele que a sujeitou.” (Rm 8,20). O refrão do Hino da Campanha da Fraternidade 2011 nos diz e questiona: “Nossa Mãe Terra, Senhor, geme de dor noite e dia. Será de parto esta dor ou simplesmente agonia? Vai depender só de nós, vai depender só de nós”. Ora, não seria a Mãe Terra a falar pela boca do profeta Isaías, quando afirma: “Por muito tempo me calei, estive em silêncio e me contive. Como uma mulher que está de parto, eu gemia, suspirava, respirava ofegante.” (Is 42,14)?. Os gemidos da natureza confundem-se com os gemidos dos humanos, sobretudo dos pobres e oprimidos. E, natureza e humanos, unindo solidariamente seus gritos causados pela mesma dor, poderão chegar ao estado de “Integridade da Criação”. Criação íntegra, inteira, unida, em plena comunhão, entre si e com o Criador, renovada no Cristo, pela força do Espírito Santo. O hino “Jesus Cristo, Esperança do Mundo”, que cantamos em comunhão com a caminhada ecumênica das Igrejas Cristãs, afirma poética e evangelicamente: “Venha o Teu Reino, Senhor, a Festa da Vida recria. A nossa espera e a dor, transforma em plena alegria!”


-Jovens Conectados: Qual o resultado final que você faz sobre esse debate?

-Elson Matias: As perspectivas para a continuidade da luta e da organização popular estão muito boas, segundo aquilo que foi vivenciado na Cúpula dos Povos, pois o espaço de possibilitar a convergência e a aceitação mútua entre os povos geram trabalhos conjuntos e articulados para a promoção da Justiça e da Paz. A Ecologia, como tema transversal a todos os debates, faz com que a preocupação com a Vida, como bem supremo, venha reforçar a luta e a atuação de milhares de pessoas em todo o mundo que, indignados com a situação, promovem a conscientização para que cada pessoa, grupo, entidade, comunidade se organize e, coletivamente, proponha e assuma mudanças, no indivíduo, na comunidade e na sociedade. Para a JUFRA e a PJ, particularmente, a Cúpula dos Povos veio reforçar nosso papel cristão de, como Igreja, sermos solidários e samaritanos junto aos sofredores e sofredoras do mundo inteiro. Além disso, a participação de nós, jovens católicos, abriu novas possibilidades de parceiras com outras entidades civis que também acreditam e lutam por essas causas. Somos conscientes que nossa participação ativa nesse processo é o nosso compromisso como Igreja, e temos certeza que estar nesse processo, trazendo nossas visões da natureza e nossa perspectiva de uma sociedade justa e fraterna representa nossa principal contribuição nesses debates.

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