sábado, 4 de março de 2006

Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Juventude 2006

Publicamos a mensagem que Bento XVI escreveu aos jovens do mundo com motivo do XXI Dia Mundial da Juventude, que se celebrará em 9 de abril de 2006, Domingo de Ramos, nas dioceses.
“Tua palavra é lâmpada para os meus pés, E luz para o meu caminho” (Sl 119,105) Queridos jovens! Ao dirigir-me com alegria a vocês que estão se preparando para a XXI Jornada Mundial da Juventude, revivo em minha alma a lembrança das experiências que tive na Alemanha no mês de agosto passado. A Jornada deste ano celebrar-se-á nas diferentes Igrejas locais e será uma ocasião oportuna para reacender a chama do entusiasmo despertada em Colônia e que muitos de vocês levaram às famílias, paróquias, associações e movimentos. Será, ao mesmo tempo, um tempo privilegiado para fazer participar, a tantos amigos de vocês, na peregrinação espiritual das novas gerações para Cristo. O tema que proponho para a consideração de vocês é um versículo do Salmo 119 (118): “Tua palavra é lâmpada pás os meus pés, e luz para o meu caminho” (v. 105). O amado João Paulo II comentou estas palavras do Salmo dizendo que “o orante se derrama em louvor à Lei de Deus, lei que toma como lâmpada para seus pés no caminho muitas vezes obscuro da vida”. (Audiência geral de 14 de novembro de 2001). Deus se revela na história, fala aos homens e sua palavra é criadora. Com efeito, o conceito hebreu “dabar”, habitualmente traduzido com o termo “palavra”, quer significar tanto “palavra” como “ato”. Deus diz o que faz e faz o que diz. No Antigo Testamento anuncia aos filhos de Israel a vinda do Messias e a instauração de uma “nova aliança; no Verbo feito carne Ele cumpre suas promessas. Isto é posto em evidência, também, no Catecismo da Igreja Católica: “Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. Nele Ele diz tudo, não haverá outra palavra mais que esta” (nº. 65). O Espírito Santo que guiou o povo eleito, inspirando os autores das Sagradas Escrituras, abre o coração dos crentes à inteligência daquilo que estas contém. O mesmo Espírito está ativamente presente na Celebração Eucarística quando o sacerdote, pronunciando “na pessoa de Cristo” as palavras da consagração, converte o pão e o vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, para que seja alimento espiritual dos fiéis. Para avançar na peregrinação terrestre rumo à Pátria celeste, todos precisamos alimentar-nos da palavra e do pão da Vida eterna, inseparáveis entre si. Os apóstolos acolheram a palavra de salvação e a transmitiram a seus sucessores como uma jóia preciosa guardada no cofre seguro da Igreja; sem a Igreja esta pérola correria o risco de perder-se ou fazer-se em pedaços. Queridos jovens, amem a palavra de Deus e amem a Igreja que lhes permite ter acesso a um tesouro de um valor tão grande, introduzindo-os a apreciar sua riqueza. Amem e sigam a Igreja que recebeu de seu Fundador a missão de mostrar aos homens o caminho da verdadeira felicidade. Não é fácil reconhecer e encontrar a autêntica felicidade no mundo em que vivemos, no qual o homem é, não poucas vezes, refém de correntes ideológicas que o induzem, apesar de crer-se “livre”, a perder-se nos erros e ilusões de ideologias aberrantes. Urge “libertar a liberdade” (cfr. Encíclica Veritatis splendor, 86), iluminar a escuridão na qual a humanidade vai, às cegas. Jesus mostrou como isso pode acontecer: “Se vos mantiverdes em minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres” (Jo 8,31-32). O Verbo encarnado, Palavra de Verdade, nos faz livres e dirige nossa liberdade para o bem. Queridos jovens, meditem a palavra de Deus, e deixem que o Espírito Santo seja o mestre de vocês. Vocês descobrirão, assim, que o pensamento de Deus não é o pensamento dos homens: vocês serão levados a contemplar ao Deus verdadeiro e a ler os acontecimentos da História com os olhos dEle; vocês saborearão em plenitude a alegria que nasce da verdade. No caminho da vida, que não é fácil nem isento de insídias, vocês poderão encontrar dificuldades e sofrimentos e, às vezes, a tentação de exclamar com o Salmista: “Estou por demais humilhado” (Sal 119, v. 107). Não se esqueçam de acrescentar, junto ao Senhor: Senhor, “faze-me viver conforme a vossa palavra... Minha vida sempre está em perigo, porém não me esqueço de vossa vontade” (ibid., vv 107.109). A presença amorosa de Deus, através de sua palavra, é tocha que dissipa as trevas do medo e ilumina o caminho, também nos momentos mais difíceis. Escreve o autor da Carta aos Hebreus: “A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto onde a alma e o espírito se encontram, e até onde as juntas e medulas se tocam; ela sonda os sentimentos e pensamentos mais íntimos” (4,12). É necessário tomar a sério a exortação de considerar a Palavra de Deus como “arma” indispensável na luta espiritual; ela age eficazmente e dá fruto se aprendemos a escutá-la para obedecer-lhe depois. Explica o Catecismo da Igreja Católica: “Obedecer (ob-audire) na fé, é submeter-se livremente à Palavra escutada, porque sua está assegurada por Deus, a própria Verdade” (nº. 144). Se Abraão é o modelo desta escuta que é obediência, Salomão se revela, por outro lado, como um buscador apaixonado da sabedoria contida na Palavra. Quando Deus lhe propõe: “Pede-me. O que lhe posso dar?” o sábio rei responde: “Concede, pois, a teu servo um coração que entenda” (1 Reis 3,5.9). O segredo para ter um “coração que entenda” é construir um coração capaz de escutar. Isto se consegue meditando sem cessar a palavra de Deus e permanecendo enraizados nela, mediante o esforço de conhecê-la sempre melhor. Queridos jovens, exorto-os a adquirirem intimidade com a Bíblia, a tê-la em mãos, para que seja para vocês como uma lanterna que mostra o caminho a seguir. Lendo-a, vocês aprenderão a conhecer a Cristo. São Jerônimo observa, a respeito disso: “O desconhecimento das Escrituras é o desconhecimento de Cristo” (PL 24,17; cfr. Dei Verbum, 25). Um modo muito reconhecido para aprofundar e saborear a palavra de Deus é a lectio divina, que constitui um verdadeiro e apropriado itinerário espiritual em etapas. Da lectio, que consiste em ler e tornar a ler uma paisagem da Sagrada Escritura, tomando os elementos principais, passa-se à meditatio, que é como uma parada interior, na qual a alma se dirige a Deus tentando compreender o que sua palavra diz hoje, para a vida concreta. Em seguida, segue a oratio, que faz que nos entretemos com Deus em colóquio direto, e finalmente se chega à contemplatio, que nos ajuda a manter o coração atento à presença de Cristo, cuja palavra é “lâmpada que br ilha em lugar escuro, até que desponte o dia e se levante em vossos corações” (2 Pe 1,19). A leitura, o estudo e a meditação da Palavra tem que desembocar, depois, numa vida de coerente adesão a Cristo e à sua doutrina. Adverte o apóstolo Tiago: “Quem ouve a Palavra de Deus e não a pratica, é como alguém que observa no espelho o rosto que tem desde o nascimento; observa a si mesmo e depois vai embora, esquecendo a própria aparência. Mas quem se concentra numa lei perfeita, a lei da liberdade, e nela continua firme, não como ouvinte distraído, mas praticando o que ela manda, esse encontrará a felicidade no que faz” (Tg 1,22-25). Quem escuta a palavra de Deus e sempre remete a ela põe sua existência sobre um fundamento sólido. “Todo aquele que escuta estas minhas palavras e as põe em prática – disse Jesus – será como o homem prudente que edificou sua casa sobre a rocha” (Mt 7,24): não cederá às inclemências do tempo. Construir a vida sobre Cristo, acolhendo com alegria a palavra e pondo em prática a doutrina: eis aí, jovens do terceiro milênio, qual deve ser o programa de vocês! É urgente que surja uma nova geração de apóstolos enraizados na palavra de Cristo, capazes de responder aos desafios de nosso tempo e dispostos a difundir o Evangelho por todas as partes. Isto é o que lhes pede o Senhor, a isso os convida Igreja, é isso que o mundo – mesmo sem sabê-lo – espera de vocês. E se Jesus chama a vocês, não tenham medo de responder-lhe com generosidade, especialmente quando lhes propõe de segui-Lo na vida consagrada ou na vida sacerdotal. Não tenham medo; confiem nEle e não se sentirão decepcionados. Queridos amigos, com a XXI Jornada Mundial da Juventude, que celebraremos no próximo 09 de abril, Domingo de Ramos, empreenderemos uma peregrinação ideal até o encontro mundial dos jovens, que acontecerá em Sydnei, no mês de julho de 2008. Preparar-nos-emos para esta grande entrevista refletindo juntos sobre o tema O Espírito Santo e a missão, através de etapas sucessivas. Neste ano concentraremos a atenção no Espírito Santo, Espírito da Verdade que nos revela Cristo, o Verbo feito carne, abrindo o coração de cada um à Palavra de salvação, que conduz à Verdade integral. No ano seguinte, 2007, meditaremos sobre um versículo do Evangelho de São João: “Como eu vos amei, assim amai-vos também uns aos outros” (13,34) e descobriremos ainda mais profundamente como o Espírito Santo é Espírito de Amor, que infunde em nós a caridade divina e nos faz sensíveis às necessidades materiais e espirituais dos irmãos. Por fim chegaremos ao encontro mundial de 2008, que terá como tema “Recebere is a força do Espírito Santo, que virá sobre vós e sereis minhas testemunhas” (At 1,8). Desde agora, num clima de incessante escuta da palavra de Deus, invoquem, queridos jovens, o Espírito Santo, Espírito de fortaleza e de testemunho, para que os faça capazes de proclamar sem temor o Evangelho até os confins da terra. Maria, presente no Cenáculo com os Apóstolos à espera do Pentecostes, lhes seja mãe e guia. Que Ela lhes ensine a acolher a palavra de Deus, a conservá-la e a meditá-la nos corações de vocês (cfr Lc 2,19) como o fez durante toda a sua vida. Que Ela alente a vocês a dizerem “sim” ao Senhor, vivendo a “obediência da fé”. Que Ela os ajude a serem firmes na fé, constantes na esperança, perseverantes na caridade, sempre dóceis à palavra de Deus. Acompanho-os com minha oração, enquanto abençôo a todos, de coração. Vaticano, 22 de fevereiro de 2006, Festa da Cátedra de São Pedro Apóstolo.
Papa Bento XVI
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