sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Entrevista: Teologia Negra ✊🏿

O que é Teologia? Entende-se como a ciência que busca estudar o entendimento do que se constitui como Deus, junto dos aspectos de natureza, os atributos e as relações com o ser humano, e ainda, o universo. Na pesquisa etimológica, a palavra teologia vem do grego Theos (Deus) + logos (estudo ou palavra) = Estudo de Deus. Além da teologia clássica, tem-se outras teologias, por exemplo a Teologia Negra. 

Para falar sobre Teologia Negra, convidamos Frei Renieverton, OFM, da Província Santa Cruz. Atualmente, o frei mora em Belo Horizonte e está encerrando a faculdade de teologia. 



➡ O que é a Teologia Negra? E por que falar dela nos dias de hoje?

A Teologia Negra é fruto da experiência dos africanos da disporá estadunidense, que passaram por todo o processo de escravização. Esta por sua vez, não tem a mesma origem da teologia negra africana. A Teologia Negra diaspórica é resultado das lutas dos negros e negras que viveram ou, ainda, vivem em condição de segregação e marginalização numa sociedade branca, heteronormativa e racista. É uma realidade da cultura e das igrejas negras nos EUA, que se estendeu ao Caribe, Latinoamérica e África do Sul, na resistência contra a desumanidade causada pelo racismo – É uma teologia emergente, de fronteira e decolonial. Uma luta negra antirracista das igrejas e de movimentos sociais, iniciada na metade da década de 1960 entre os cristãos negros no EUA e liderada pelo pastor batista Martin Luther King e as lutas dos movimentos pelos Direitos Civis e do Black Power. ATeologia Negra estadunidense lutava por justiça, libertação social, política e econômica numa sociedade dominada pelos brancos. Logo, a Teologia Negra é a evocação epistêmica na contramão do colonialismo, que com toda sua pretensão, categoriza todas as outras formas de fazer teologia como marginal, periférica, herética, contextual e militante. A Teologia Negra pensa fora das categorias colonizadoras, sua práxis é dialogal, macro ecumênica, totalmente voltada ao diálogo inter-religioso, rejeitando totalmente a perspectiva universalista, salvacionista e eurocêntrica cristã. Para a Teologia Negra nenhuma religião tem si o monopólio da verdade. Por isso, a Teologia Negra não se proclama como única e acabada, pelo contrário, é uma teologia da territorialidade, do corpo e da materialidade, vivenciada e escrita todos os dias. Por isso, sua importância nos dias hoje para combater intolerâncias, racismos e todas as outras formas de segregação.


➡ Em quais pontos a teologia negra converge e em quais (se existir) ela diverge da Teologia Clássica?

A Teologia Clássica está marcada por aspectos coloniais, hegemônicos e eurocêntricos, ao passo que a Teologia Negra nos desperta para uma decolonialidade epistêmica, tendo como ponto de partida o protagonismo do povo negro, em que os mesmos possam falar das suas próprias experiências religiosas. Segundo Cone (1985), a Teologia Negra é uma teologia do povo negro e para ele, um exame de suas histórias, contos e ditos. É uma investigação da mente feita nas matérias-primas de nossa peregrinação, contando as histórias de como nós vencemos.


➡ Quais os pontos podem nos ajudar a denegrir, tornar negro, o nosso olhar de fé?

O primeiro ponto é reconhecer que fomos ensinados a ter experiências de fé que não questionam relações de subalternidade onde nosso olhar não chega às pessoas que são excluídas simplesmente por serem negras. É sempre importante se perguntar se seu olhar de fé ultrapassa os muros do dogmatismo. Um olhar de fé autêntico e enraizado na pessoa de Jesus Cristo não silencia diante de situações de racismo, opressão ou quaisquer outras formas de marginalização. É preciso questionar como as pessoas negras na sua comunidade se sentem, elas são participantes dos movimentos, assumem cargos e pastorais... um olhar de fé enegrecido é aquele que traz as pessoas que estão à margem para o centro.


➡ Ã‰ possível falar de vários olhares teológicos (teologia negra, indigenista, mulherista, queer…) e como eles concretizam o experienciar Deus?

Todas as pessoas têm o direito de fazerem suas experiências com Deus, todavia, essas experiências não podem ser impostas por perspectivas teológicas em que as pessoas não se sintam representadas. As teologias de fronteira (teologia negra, indigenista, mulherista...) concretizam suas experiências com Deus a partir do momento que se tornam libertadoras e capazes transformarem a vida das pessoas. Não é possível fazer teologia se a mesma não nos tira da nossa zona de conforto ou da zona da invisibilidade, neste sentindo, tais teologias impulsionam novas categorias de existir e resistir.


➡ Você consegue destacar para nós quais os pontos do carisma franciscano que conversam com esse resgate e vivência da negritude do evangelho?

O carisma franciscano tem em sua essência o diálogo e o respeito à dignidade humana. Pontos importantes da luta negra que busca resgatar a perspectiva de uma sociedade antirracista e com equidade. Porém, se tais pontos não chegam a questão racial, ou mesmo a questão de gênero, migratória e tantas outras, nosso discurso franciscano está na superficialidade. O carisma franciscano não pode e nem deve ser dialogal apenas com uma esfera já privilegiada.


➡ Por fim, como podemos efetivar uma vivência da teologia negra dentro da fé católica e no seio franciscano? É possível inculturar a negritude, resgatando elementos advindos das religiões afro-brasileiras, sem perder a identidade?

O primeiro passo para tornar efetivo uma vivência teológica, eclesiológica e sociológica a partir da negritude é reconhecer que estamos inseridos num contexto estruturalmente racista. Ademais, aprofundar nos estudos sobre Teologia Negra, como o racismo em todas as suas esferas coloca a comunidade negra na subalternidade, questionar o porquê de pessoas negras não estarem em posições de poder e destaque como pessoas brancas. É preciso consumir produtos de pessoas negras, contratar pessoas negras para todos os cargos, se informar sobre questões raciais, cotas, políticas afirmativas. Ler autores e autoras negros, reconhecer, valorizar e respeitar as pessoas negras, sua descendência africana, sua cultura e história. Compreender seus valores e lutas, ser sensível ao sofrimento causado por tantas formas de desqualificação: apelidos depreciativos, brincadeiras, piadas de mau gosto sugerindo incapacidade, ridicularizando seus traços físicos, a textura de seus cabelos, fazendo pouco das religiões de raiz africana. Implica criar condições para que os estudantes negros e negras não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele, e sobretudo, não sejam “desencorajados” de prosseguir nos estudos e nos seus sonhos.


Reconhecer Jesus nas feições negras, que Ele se encarnou
e se encarna e vive a vida do povo.”


Construção das perguntas e contribuições:  

Muhamed Hochai -  Jufrista/RN - PB
Maiara Bulhão - Jufrista/MA
Aislan Viçosa - Jufrista/RS
Frei Faustino, OFM
Frei Lorrane , OFM

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