segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FREI ATÍLIO FALA SOBRE A MISSÃO FRANCISCANA NA AMAZÔNIA PERUANA

Frei Atílio Battistuz, OFM



De 05 a 30 de janeiro de 2015, realizou-se em Orellana, às margens do rio Ucayali, no Vicariato Apostólico de Requena, em Loreto – Peru, a terceira experiência missionária na Amazônia, promovida pela fraternidade do Projeto Amazônia.

Participaram da experiência 27 missionários, oito missionários e missionárias provenientes do Brasil, cinco da Argentina, um do Paraguai, um do Equador, um do México, e onze do Peru, sendo quatro da Amazônia.  Entre eles, onze são frades, uma religiosa e quinze leigos e leigas, dentre os quais quatro são da OFS. Dentre os frades, é bom destacar que cinco estão no período de formação.

Falo em experiência, porque o convite foi exatamente para “realizar uma experiência missionária na Amazônia, e tomar contato com uma realidade amazônica local”. O primeiro objetivo era “oferecer aos irmãos e irmãs a possibilidade de uma experiência missionária na Amazônia”, destinado principalmente a quem não conhece a Amazônia ou que não mora na Amazônia. Não deixa de ser também a oportunidade para um discernimento vocacional, para ser missionário além-fronteiras.
A experiência já começou em Pucallpa, ponto de encontro dos missionários, onde fica o aeroporto mais próximo. Além de aeroporto, Pucallpa também tem estrada. Está ligada à malha rodoviária do país, por onde entram a maioria dos produtos que chegam à Amazônia. A partir de Pucallpa não tem mais estradas e o transporte é fluvial. A viagem por rio foi o primeiro contato dos missionários com a Amazônia e tiveram que esperar dois dias para a saída do barco. Isso porque já estava agendado e confirmado que sairia, mas como não tinha toda a carga, não saiu! Assim é por aqui, os barcos são de carga, tem o seu lucro no transporte de carga e não saem enquanto não tem a carga completa. Os passageiros são uma carga a mais, não têm conforto (viaja-se em redes), não têm dignidade, não têm direitos e pouca segurança. Aliás, não existe nem política de transporte público.  A viagem demorou umas 30 horas, para quem se localiza em quilômetros, como eu, para vencer uma distância de uns 180 km, num percurso de um pouco mais de 300 km. Viajar na Amazônia é um exercício de paciência. O que retarda a viagem são as paradas, para carga e descarga. !

Orellana está situada às margens do Rio Ucayali, na Região de Loreto. Com 78 anos de emancipação política, capital de distrito, é uma pequena cidade com uns 8.000 habitantes, uma pacata vila típica da selva peruana, com seis bairros, um comércio básico, pouquíssimas ruas pavimentadas, poucos serviços, energia elétrica 5 horas por dia, no anoitecer, fornecimento de água do rio, também algumas horas diárias, um hospital, escolas em todos os níveis, e apenas uma extensão universitária, telefone fixo somente público, telefonia móvel, e no momento sem internet ao público (somente o hospital e uma escola tem internet para serviços internos). O povo vive basicamente da agricultura de subsistência e da pesca. O point da cidade é o amanhecer, quando, como num ritual diário grande parte da população vai à feira, chamada de “mercado”, próximo a praça, à margem do rio, ou para vender, ou para comprar, ou mesmo para visitar.

A Paróquia N. S.do Perpétuo Socorro, além do centro urbano com a matriz e duas capelas nos bairros, tem umas 30 vilas ribeirinhas ou “casarios”. Conta com uma fraternidade de Irmãs Franciscanas da Natividade de Maria, e agora a Fraternidade dos Frades do Projeto Amazônia. Um frade espanhol foi missionário aqui por 50 anos, até a sua morte, aos 82 anos de idade em 2010. Após sua morte ficou um intervalo de dois anos sem a presença de um padre, apenas com visitas esporádicas. Nos últimos anos já não visitava os casarios. Quem ainda visita com rotina é uma irmã com alguns leigos.

O que fizeram os missionários?
 
A missão propriamente dita foi de 11 a 25 de janeiro, com abertura na missa dominical e encerramento também na missa dominical. Antes disso, é claro, foi a viagem, a chegada, a recepção, entrosamento dos missionários, informações sobre a realidade local e a Amazônia, organização, temática, metodologia da missão e composição das equipes ou fraternidades e oração.  Depois dessa data foi a avaliação, confraternização e viagem de regresso até Pucallpa.

A programação teve dois momentos distintos: a primeira semana foi na cidade, e a segunda nos casarios ribeirinhos. Assim que todos os missionários tiveram a possibilidade de realizar as duas experiências. Divididos em seis “fraternidades”, foram atendidos os seis bairros. A programação foi simples, durante o dia visitas, às famílias, comércio, instituições públicas, e à noite encontro de formação e estudo bíblico. As visitam foram acompanhadas também por missionários locais, dos próprios bairros. As crianças sempre foram em número maior, e demandaram uma programação especial, mais criatividade e muito mais energia dos missionários. O conteúdo da catequese já estava previsto com um subsídio temático e um encontro diário dos missionários para o estudo do tema de cada dia. O tema central foi a “Boa Notícia de Jesus Cristo de que o Reino está próximo”. A sequência dos temas atendia aos objetivos de “animar a vida crista”, “despertar e promover novas lideranças comunitárias” e, a longo prazo, ”criar comunidades eclesiais de base” nos bairros. Para concluir a semana, no sábado foram realizados três encontros unindo todos os bairros, um com crianças, um com jovens e outro com adultos e no domingo a celebração dominical nos mesmos lugares dos encontros realizados durante a semana.

Na segunda semana as mesmas fraternidades se deslocaram para diferentes lugares para visitar casarios e vilas.    A temática foi a mesma, mas a dinâmica e a programação adaptada a cada realidade. O tempo de permanência também foi de um a cinco dias, dependendo das circunstâncias e do número de habitantes. Alguns casarios têm algumas famílias, com menos de cem habitantes, outros são verdadeiras vilas com mais de dois mil habitantes. Alguns têm animadores, outros não têm. Em alguns são todos católicos, em outros a maioria são evangélicos. Alguns recebem visita com frequência, outros não recebem há muito tempo, não faltando lugares que nunca receberam a visita de um missionário. Merece menção a visita a um “pueblo”, afastado da margem do rio, que foram necessárias mais de três de caminhada, amassando barro argiloso e enfrentando chuva, e outras tantas de regresso, compensadas pela fraterna acolhida e animadora e participação das famílias.

O que levam os missionários? 
O impacto da realidade e a riqueza da experiência. A realidade externa é diferente: lugar, transporte, comida, clima, a arquitetura, as casas, o povo, a exuberância e abundancia da natureza. A falta de energia elétrica, de internet, de celular, ou de instalações confortáveis, não chegou a ser problema. Os missionário tiveram oportunidade de contemplar a exuberância da mata, a majestade do rio, a escuridão da noite, o brilho das estrelas, a sinfonia da floresta, o colorido de um por do sol, a poesia da lua, mas também puderam consentir o calor do sol picante, a intensidade das chuvas, o esforço de andar no barro, a insegurança e o medo diante do desconhecido, das viagens de canoa, a preocupação com ratos e serpentes, as picadas dos mosquitos e insetos. No entanto, nada disso diminuiu a alegria e o entusiasmo. Foi típico o clima festivo, de risos e piadas, e uma convivência fraterna saudável e espontânea.

Para avaliar, nada melhor do que dar a palavra aos missionários: “Estou muito contente por vir”.  “Foi das experiências mais ricas da minha vida”; “Uma missão muito viva para mim, muito aprendizado, um aprendizado incrível, uma graça de Deus”; “Tivemos os privilegio de conhecer o que outros não conheceram”; “Realizei um sonho, cresci um pouco”; “Todos nos receberam muito bem, pudemos partilhar a convivência, o trabalho”; “É uma realidade nova que se abre para mim”; “Vi um povo pobre, sofrido, mas com alegria de viver”; “Aqui conseguem viver com pouco, nós temos mais do que necessitamos”; “Marcou-me muito o abraço de uma criança”; “A convivência foi muito bonita”; “Viver a missão é um presente de Deus”; “A missão é um estilo de vida”; “Foi um sair, cheguei sem conhecer nada e me senti acolhido”; “Tenho que agradecer tudo o que vivi”; “Obrigado porque nos convidaram”; “Obrigado por tudo”.
 
O que deixam os missionários?
Deixam muitas preocupações, questionamentos e até indignações, diante dos problemas sociais, ambientais e desafios pastorais: “Pouca participação”; “Ausência nos encontros, falta animadores, falta catequista”; “A vida comunitária não conta, não existe”; “A pobreza é agressiva, as pessoas morrem de anemia, as mulheres só servem”; “muitos problemas sociais, crianças na lama, lixo em todo lugar”; “As pessoas sobrevivem, não vivem!”; “Como falar de Deus para as pessoas que tem fome de pão?”; “Como está nossa Igreja?”; “Como os católicos vivem a fé?”; “Muita indiferença religiosa”; “O nosso discurso já não atrai! Onde estamos falhando?”; “Se o batismo é um evento social, falta muitíssima evangelização”; “Temos que fazer algo mais”. A intenção não é fazer um diagnóstico, mas mostrar algumas reações que mostram ao mesmo tempo, a realidade social, a fragilidade da Igreja, e o desafio da missão na Amazônia, uma tarefa de todos os batizados.

Mas os missionários também deixam esperanças e perspectivas de futuro. É claro que uma missão como esta não resolve os problemas, nem tem este objetivo, mas traz novo ânimo e levanta esperanças. Perceberam que existem muitos sinais do reino na vida do povo, há um grande potencial comunitário, eclesial, é preciso investimento e dedicação, e isso vai depender da equipe local de missionários e missionárias.  De forma bem sucinta, a sugestão que os missionários deixam é: Continuar com os estudos bíblicos; fortalecer a pastoral juvenil; formar animadores e catequistas; visitar os casarios com mais frequência.

Uma palavra final: obrigado aos missionários e missionárias que aceitaram o convite, se disponibilizaram e doaram de seu tempo, foram desprendidos, abriram mão de suas férias, tiveram despesas pessoais (cada um assumiu as despesas de viagem), correram risco de doenças, enfrentaram o desconhecido, e que trouxeram alegria, viveram intensa vida fraterna, cativaram a simpatia do povo, deram testemunho do evangelho, anunciaram a boa notícia do Reino de Deus, mostraram um potencial da Igreja, renovaram esperanças.

¡Muchas gracias! Dios les bendiga.

Fonte: See more at: http://www.franciscanos.org.br/?p=79195#sthash.2AHeA6vt.dpuf
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