quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Mais 40 anos à JUFRA no Brasil - Carta do Frei João Gierse, OFM


Queridas irmãs, queridos irmãos jufristas no Brasil: PAZ e BEM em Francisco de Assis!

É agradecendo à Providência Divina que parabenizo a vocês do fundo do meu coração pelos 40 anos de JUVENTUDE FRANCISCANA no Brasil. Que maravilha, a semente plantada caiu em terra boa e continua produzindo em toda parte frutos – cem por um! Vocês são chamados/as e enviados/as por Deus para serem três vezes “grandes”: enquanto ao estado de vida, pois o simples fato de ser jovem implica grandeza, enquanto ao carisma que desejam a abraçar e que se origina num dos maiores santos, e enquanto à missão que desafia vocês, a de ser juventude-fermento num dos maiores países do planeta, o Brasil!


Como membro da grande Família Franciscana, irmanado com vocês pelo mesmo carisma francisclariano, gostaria de lhes mandar um singelo presente em forma de uma “cartinha” contando o meu contato com a JUFRA, apreciando a festa jubilar em Guaratinguetá e apontando rumos...    

Fazendo memória: vestígios de JUFRA na minha vida


Ao longo dos meus 13 anos de pastoral paroquial no Nordeste – especificamente nas dioceses de Teresina-PI, Parnaíba-PI e Bacabal-MA – tive pouco ou nenhum contato com a JUFRA. Encontrei as fraternidades da OFS, já formadas ou em fase de implantação, mas não vi a “Juventude Franciscana”. Porém, a verdade seja dita, nas fileiras da PJ havia alguns grupos dedicados a São Francisco ou com o nome “Paz e Bem”, e a gente esperava que eles se tornassem uma semente jufrista. Exceção era/é a JUFRA de São Francisco das Chagas na cidade de Bacabal-MA, reconhecida pela sua fama de ser animada e atuante.

Nos anos de 2007 a 2010 morei no Convento de São Francisco, situado no centro da Grande São Paulo, onde fiz uma experiência inédita com a “JUFRA das Chagas”. Guardo na minha memória os momentos fortes de convívio e colaboração com aquela juventude que vinha dos quatro cantos da metrópole para viver franciscanamente em fraternidade. Lembro as festas de Santo Antônio, São Francisco e frei Galvão, e de como os jovens vendiam frente ao Santuário “seu bolo”; as celebrações e encontros mensais na “casinha”; a festa dos 10 anos, e os contatos amigáveis que surgiram e se mantêm até hoje. Por sinal, o coordenador daquela “pequena” JUFRA tornou-se o atual secretário nacional: irmão Alex Bastos.



Há um ano estou evangelizando na Amazônia. Também aqui encontrei vestígios jufristas! No ano passado, ao comemorar o DNJ na cidade de Santarém, a JUFRA vestiu sua camisa e caminhou, em peso, no meio e junto com a juventude, dando sua colaboração no mutirão de limpeza da orla do rio Tapajós. – Aqui em Boa Vista, o jovem diácono, Josimar, passando dias de retiro em nossa casa, contou como os encontros da JUFRA foram marcantes para a vida e vocação dele.

Guaratinguetá: o jubileu dos 40 anos de caminhada

Parabenizo vocês pela graça dos 40 anos da Juventude Franciscana no Brasil. Que bom que vocês fazem parte da Família Franciscana, da Igreja, do mundo enriquecendo-nos e alegrando-nos com seu carisma de testemunhar a Boa Nova! Mirando as fotografias na internet imagino o tamanho de felicidade de vocês por ter realizado um grande sonho: o de reunir o maior número possível de irmãos e irmãs de todo o Brasil para comemorar a história construída, saborear o presente e lançar os caminhos para o futuro. Realizar um evento desta magnitude requer comunicação, organização, logística, mas, sobretudo, união e paixão! Vocês demonstraram que têm tudo isso! O “DNJ franciscano” de Guaratinguetá já entrou como um marco precioso na história destes 40 anos!

Com certeza, vocês se alegraram e animaram com a presença de cada irmão/irmã jufrista que vinha chegando dos lugares mais diversos e tão distantes; no entanto, para quem ama sua família (franciscana) a ausência de um membro faz falta! Das cinco regiões do Brasil – cada uma por si já gigantesca pela extensão e concentração populacional – quatro estiveram representadas; da região Norte, porém, a Amazônia que abrange a maior área do Brasil (45%) e geme como nenhum outro lugar do mundo as dores agonizantes, NENHUM jovem jufrista esteve presente. Acredito fielmente que o secretariado nacional da JUFRA não se conformará com este fato e vai tirar as lições...

Parabenizo vocês, ainda, pela iniciativa do gesto concreto lançando a Carta de Guaratinguetá: “A JUFRA que queremos ser”. Ela manifesta a consciência e o cuidado de conjugar fé e vida, de criar e recriar, hoje, à luz dos inúmeros e complexos desafios do mundo, a forma de viver o Evangelho, proposta por Francisco de Assis há 800 anos, e assim, de apontar os rumos da missão da Juventude Franciscana em nossos dias. Deus queira abençoar generosamente todos vocês, sonhadores utópicos, que desejam comprometer-se com o desafio de construir uma grande história, um futuro ousado! Eu diria: um futuro decisivo entre a vida e a morte...       

A missão da JUFRA no Brasil: construir 20 anos decisivos

A Carta de Guaratinguetá, notavelmente escrita com paixão e esperança, declara com muita humildade e clareza o que vocês querem ser enquanto jovens inseridos no meio das juventudes, enquanto jufristas participantes ativos da comunidade eclesial, enquanto JUFRA, um dos ramos da Família Franciscana, e enquanto jovens que crêem no Deus Sumo Bem e querem ser “presença desafiadora na sociedade”.


No entanto, o melhor e mais importante da Carta, segundo a minha opinião, consta na sua conclusão! Inspirados pelas primeiras palavras da Gaudium et Spes – como fico encantado por terem resgatado o espírito do Vaticano II ! – vocês se comprometem, entre outras coisas, a “fortalecer os grupos de conscientização sócio-ambiental e coleta de materiais recicláveis”, e anunciam, como contribuição específica, a realização anual da “Jornada Franciscana Nacional pelos Direitos Humanos”. [Observação: O conceito “Direitos Humanos” nos parece inadequado. Uma visão holística ajuda-nos melhor a entender que os Direitos Humanos e os Direitos da Terra se entrelaçam. Devemos refletir, sempre, sobre questões ecológicas, isto é, sócio-ambientais. Os princípios básicos da vida antecedem e norteiam os Direitos e Deveres Humanos. – O tema da 2ª Semana Nacional Franciscana expressa isso perfeitamente!] 

Louvo a Deus por essa relevante iniciativa de vocês e parabenizo pelo fantástico material elaborado para a 2ª Semana Franciscana Nacional, a ser realizada logo mais em dezembro, tendo como tema “Juventude e Justiça Sócio-Ambiental”. Peço a toda JUFRA e à Família Franciscana no Brasil para que, por amor a Deus e à criação, a questão “sócio-ambiental”, alias, “a Vida no Planeta” receba nossa incondicional atenção e total compromisso!

Quero lhes contar uma experiência pessoal para entenderem minha inquietude: Sou filho de pais que presenciaram, do início ao fim, o tempo nazista na Alemanha. Quando o ditador Adolf Hitler chegou em 1933 ao poder, meu pai teve 14 anos, a mãe 12; no início da 2ª Guerra Mundial, o pai se tornou soldado aos 20 anos, a mãe (18) teve que procurar meios de subsistência para a família dela. Em 1947, os dois casaram aos 28 e 26 anos, sendo que nosso pai voltou deficiente da guerra. Nós, nascidos em tempos de pós-guerra, ouvimos mil vezes como “nossos pais nos contaram” as histórias reais, sofridas, cruéis do regime nazista e da guerra. Na escola, as aulas de história ensinaram longamente sobre aquele período negro da Alemanha que até hoje é “o nosso marco” no mundo. Enquanto jovens inocentes e ao mesmo tempo herdeiros deste passado vergonhoso, indagamos mil vezes os nossos pais: “Porque vocês, porque o povo alemão, deixou acontecer que Hitler chegasse ao poder, que toda a economia e produção fossem destinadas á indústria bélica, que seis milhões de judeus e milhares outras pessoas fossem exterminadas por motivos ideológicos???” E a resposta da geração dos nossos pais era sempre a mesma: “Nós não sabíamos de nada! E quando soubemos do genocídio, tínhamos medo de abrir a boca ou já era tarde demais...”

Em 2031, daqui há 20 anos, quando alguns dos jufristas de hoje, oxalá, terão participado do Jubileu dos 50 anos, sobretudo, quando vocês todos tiverem deixado a JUFRA – e/ou talvez mudado para a OFS –, quando a maioria de vocês jovens franciscanos tiver se casado, então os filhos e filhas de vocês, sendo criança, adolescente ou jovem, irão perguntar: “Papai, mamãe, porque vocês deixaram acontecer que a Grande São Paulo se tornou uma grande lagoa situada entre a Serra da Cantareira e a Serra Grande/Mata Atlântica? Porque as águas chegaram aos pés do Cristo no Corcovado e as cidades no litoral atlântico estão submersas? (o ultimo grande evento sediado no Rio de Janeiro serão as Olimpíadas) Porque o Nordeste não é mais a região do semi-árido, mas do árido, parecendo um deserto? Porque vocês fizeram nada para impedir a destruição da Amazônia que hoje é uma savana? Porque vocês não reagiram? Porque vocês não foram mais corajosos, somente alguns poucos, alguns mártires???” Então vocês responderão aos seus filhos: “Nós não sabíamos que estava acontecendo o ecocídio, não entendíamos as causas e consequências do aquecimento global...”? – “Mentira!”, eles vão replicar.


Irmãs e irmãos da JUFRA no Brasil! A Vida no Planeta, ou melhor, o futuro da humanidade está muito mais ameaçado do que imaginamos. Os painéis inter-governamentais sobre as Mudanças Climáticas são unânimes em afirmar que daqui há 20 anos, a destruição será irreversível. Pior, sabemos também, que nem os grandes deste mundo (indústria, comércio, bancos etc.) e nem as autoridades políticas (Conferências das Partes da ONU, os nossos Governos etc.), como tampouco a maioria do povo estão dispostos a mudar uma vírgula do sistema vigente. Não basta coletar e reciclar lixo que já são, sem dúvida, expressão de uma mudança de hábito, mas isso ainda não sana as raízes do mal! Enquanto os milhões de habitantes nas grandes cidades, nas metrópoles, não enxergam que vivem sugando “do interior” a energia gerada nas usinas hidroelétricas, os alimentos produzidos pelo agronegócio, não teremos esperanças de dias melhores. Enquanto as obras do PAC corroem igual cupim o nosso país e todos assistem alienados à transformação da Amazônia em capital financeiro, somos “ignorantes cientes” ou cúmplices da nossa destruição coletiva... Por estes motivos, desafio e convido a JUFRA no Brasil:

•    a fazer experiências missionárias na Amazônia para conhecê-la e defendê-la;
•    a se informar mais através dos MCS ou dos meios da nossa Igreja sobre a realidade amazônida;
•    a se comprometer ousada e criativamente com a promoção da vida desta região mais sofrida do Brasil.

A ecologia é nossa missão! Se não começarmos já, nosso fim será próximo! Esperançoso e amazônicamente saúda o frade menor: João Gierse em Boa Vista-RR

Concurso ecológico 2011: Mandem relatos de ações inovadoras que suscitam mudanças pessoais e coletivas! No final deste ano as ações transformadoras serão publicadas numa carta-circular e concorrerão a dois prêmios: o primeiro será dado por Deus em forma de mais qualidade de vida; o segundo será dado em forma de um valor real (em R$)!
O que achou?

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